<i>Receitas Imorais</i>
Não colaboro normalmente na voragem consumista do Natal. Este ano, por acaso, conversando em casa, apareceu a ideia de oferecer a alguns familiares mais próximos receitas de diversos pratos. A ideia foi completada com uma caixa por pessoa, que incluía todos os ingredientes da receita e uns comentários propondo tipos de companheiros/as com quem partilhar o prato cozinhado. Como tem havido críticas por (quase) nunca dar receitas, resolvi partilhar algumas delas com os leitores.
Bacalhau com coentros – Para a Mi, Lisboa.
Ingredientes para 4 pessoas: 1 cebola grande; azeite virgem de 1º; 1 kg de batatas para cozer; 3-4 postas de bacalhau demolhado; 1 cabeça de alho; 1 molho de coentros, sal e pimenta negra moída na altura.
Modus faciendi: Deita-se a cebola no azeite quente, picada ou às rodelas. Quando estiver translúcida (não queimada) deitam-se as batatas cortadas às rodelas de meio centímetro de espessura. Tempera-se com sal e pimenta. Deixa-se reaquecer o azeite e cobre-se com água ou água de cozer bacalhau. À meia cozedura das batatas espalham-se as postas de bacalhau por cima e mais um fio de azeite sobre as postas. Sobre elas deitam-se os alhos cortados ou picados. Deixa-se levantar fervura e prova-se. Rectificam-se os temperos. Corta-se o molho de coentros com uma tesoura e deita-se no tacho. Abafa-se e deixa-se apurar em lume brando.
Frango de fricassé – Para os meus sobrinhos Rita e Lourenço e para o cripto-sobrinho Tiago.
Ingredientes para 2-3 pessoas: 4-6 cebolinhas inteiras; azeite; 4-6 coxas de frango; meio ramo de salsa; 2 dl de Fino (Jerês seco); 2 ovos e 1 gema; sumo de 1 limão, sal e pimenta.
Modus faciendi: Deita-se azeite a cobrir o fundo do tacho. E logo a seguir deitam-se as cebolinhas. Quando o azeite estiver bem quente põe-se o frango, para fritar exteriormente. Tempera-se com sal e pimenta moída na altura. Quando estiver dourado, deita-se um copo de água, ou melhor, se houver, caldo de frango (que não seja de cubos !!!). Lava-se a salsa, rejeita-se a parte amarela do final do pé e o resto corta-se aos bocadinhos pequeninos e deita-se no tacho. Baixa-se o lume e deixa-se cozer (entre 15 e 30 minutos), para saber se já está, espeta-se um garfo. Deita-se o Fino e deixa-se ferver por mais 10 minutos. Ao lado batem-se os dois ovos e mais uma gema com as folhas da salsa cortadas em tirinhas fininhas; juntamente com o sumo dum limão inteiro (atenção às sementes do limão, não queremos cuspi-las à mesa...). Verte-se esta mistura no tacho mexendo continuamente com o lume no mínimo até coalhar. Prova-se e rectifica-se de sal e pimenta. Pronto, já está.
Não esquecer o pão para molhar no molhinho.
*
Manuel Vázquez Montalbán (MVM) escreveu nos princípios dos anos 80 um livro chamado Receitas imorais, onde na página esquerda dava uma receita e na direita recomendava que tipo de situação e pessoa era o adequado para cada prato. Este livro teve três edições diferentes, todas ilustradas e todas esgotadas. Eu ainda tenho duas. A primeira já me foi devidamente roubada. MVM diz num pequeno prefácio que o «imoral» só lá está porque dá prazer. «Todo o prazer é deliciosamente imoral, porque só o sofrimento é moral, cito Tomas Kempis no seu livro Imitação de Cristo.
Quis escrever umas linhas nas receitas que ofereci, com esta intenção.
Seguindo as teorias de Montalbán, a primeira receita é um prato para comer com vinho tinto com um certo corpo, e para ser desfrutado em companhia de pessoas de meia idade com paladares trabalhados, com ou sem tatuagens no corpo. Eles sedutores e cinquentões, elas de olhos e pele morena de preferência que já tenham visto muitas coisas na vida e que mantenham um elevado sentido de humor.
Quanto à segunda, é um prato para ser comido com mulheres de olhos profundos, claros se possível, ar sonhador e que pensem que o seu reino não é deste mundo. Os homens de pele alva, cabelo estudadamente desleixado e que possam sugerir à companheira que com ele o mundo não teria limites. É mentira, mas há fases na vida em que se acredita em tudo. Em ambos os casos cabelos e corpos lavados e sem excesso de água-de-colónia porque estraga o fricassé.
Bacalhau com coentros – Para a Mi, Lisboa.
Ingredientes para 4 pessoas: 1 cebola grande; azeite virgem de 1º; 1 kg de batatas para cozer; 3-4 postas de bacalhau demolhado; 1 cabeça de alho; 1 molho de coentros, sal e pimenta negra moída na altura.
Modus faciendi: Deita-se a cebola no azeite quente, picada ou às rodelas. Quando estiver translúcida (não queimada) deitam-se as batatas cortadas às rodelas de meio centímetro de espessura. Tempera-se com sal e pimenta. Deixa-se reaquecer o azeite e cobre-se com água ou água de cozer bacalhau. À meia cozedura das batatas espalham-se as postas de bacalhau por cima e mais um fio de azeite sobre as postas. Sobre elas deitam-se os alhos cortados ou picados. Deixa-se levantar fervura e prova-se. Rectificam-se os temperos. Corta-se o molho de coentros com uma tesoura e deita-se no tacho. Abafa-se e deixa-se apurar em lume brando.
Frango de fricassé – Para os meus sobrinhos Rita e Lourenço e para o cripto-sobrinho Tiago.
Ingredientes para 2-3 pessoas: 4-6 cebolinhas inteiras; azeite; 4-6 coxas de frango; meio ramo de salsa; 2 dl de Fino (Jerês seco); 2 ovos e 1 gema; sumo de 1 limão, sal e pimenta.
Modus faciendi: Deita-se azeite a cobrir o fundo do tacho. E logo a seguir deitam-se as cebolinhas. Quando o azeite estiver bem quente põe-se o frango, para fritar exteriormente. Tempera-se com sal e pimenta moída na altura. Quando estiver dourado, deita-se um copo de água, ou melhor, se houver, caldo de frango (que não seja de cubos !!!). Lava-se a salsa, rejeita-se a parte amarela do final do pé e o resto corta-se aos bocadinhos pequeninos e deita-se no tacho. Baixa-se o lume e deixa-se cozer (entre 15 e 30 minutos), para saber se já está, espeta-se um garfo. Deita-se o Fino e deixa-se ferver por mais 10 minutos. Ao lado batem-se os dois ovos e mais uma gema com as folhas da salsa cortadas em tirinhas fininhas; juntamente com o sumo dum limão inteiro (atenção às sementes do limão, não queremos cuspi-las à mesa...). Verte-se esta mistura no tacho mexendo continuamente com o lume no mínimo até coalhar. Prova-se e rectifica-se de sal e pimenta. Pronto, já está.
Não esquecer o pão para molhar no molhinho.
Manuel Vázquez Montalbán (MVM) escreveu nos princípios dos anos 80 um livro chamado Receitas imorais, onde na página esquerda dava uma receita e na direita recomendava que tipo de situação e pessoa era o adequado para cada prato. Este livro teve três edições diferentes, todas ilustradas e todas esgotadas. Eu ainda tenho duas. A primeira já me foi devidamente roubada. MVM diz num pequeno prefácio que o «imoral» só lá está porque dá prazer. «Todo o prazer é deliciosamente imoral, porque só o sofrimento é moral, cito Tomas Kempis no seu livro Imitação de Cristo.
Quis escrever umas linhas nas receitas que ofereci, com esta intenção.
Seguindo as teorias de Montalbán, a primeira receita é um prato para comer com vinho tinto com um certo corpo, e para ser desfrutado em companhia de pessoas de meia idade com paladares trabalhados, com ou sem tatuagens no corpo. Eles sedutores e cinquentões, elas de olhos e pele morena de preferência que já tenham visto muitas coisas na vida e que mantenham um elevado sentido de humor.
Quanto à segunda, é um prato para ser comido com mulheres de olhos profundos, claros se possível, ar sonhador e que pensem que o seu reino não é deste mundo. Os homens de pele alva, cabelo estudadamente desleixado e que possam sugerir à companheira que com ele o mundo não teria limites. É mentira, mas há fases na vida em que se acredita em tudo. Em ambos os casos cabelos e corpos lavados e sem excesso de água-de-colónia porque estraga o fricassé.